IPCA Estabilizado em 5,30%: O Uso do Planograma para Salvar as Margens do Varejo
Especialistas em gerenciamento de categorias, psicologia do consumidor e projeto de planogramas para varejo de alto desempenho
Última atualização: 6 de julho de 2026

O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central na segunda-feira, 6 de julho de 2026, trouxe um suspiro de alívio temporário para o varejo brasileiro: a projeção do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) para o fechamento do ano estabilizou-se em 5,30%. Essa estabilização interrompe uma sequência preocupante de altas semanais.
No entanto, uma inflação anual acima de 5% ainda representa um patamar resistente e desafiador. Para o comerciante, repassar a alta de custos da cadeia produtiva diretamente para as etiquetas de preços tornou-se uma tarefa complexa e perigosa, devido ao risco real de afugentar o consumidor endividado.
Com o poder de compra corroído, os clientes pesquisam mais e cortam itens supérfluos do carrinho de compras. Nesse cenário econômico de inflação persistente, a sobrevivência financeira do comércio físico não reside em aumentar preços cegamente, mas sim em dominar a arte do planograma e do visual merchandising.
A correta disposição dos produtos nas gôndolas de aço permite induzir sutilmente o consumidor a comprar produtos que possuem maior margem de lucro para o estabelecimento comercial, mas que oferecem excelente relação de custo-benefício. Essa técnica salva a rentabilidade do varejo sem criar conflitos de preços.
O Que é Planograma e Como Ele Maximiza a Lucratividade
O planograma é uma representação visual ou diagrama detalhado que define a posição exata de cada produto (SKU) nas prateleiras das gôndolas de aço do comércio. Ele determina a quantidade de frentes expostas de cada item (facings) e a altura de prateleira em que cada mercadoria deve ser alocada.
A lógica de estruturação de um planograma eficiente baseia-se diretamente na psicologia de consumo do cliente e na anatomia humana. A mente humana tende a escanear corredores comerciais da esquerda para a direita e de cima para baixo, focando prioritariamente na faixa horizontal situada na altura dos olhos.
Quando o varejista ignora essa regra física e posiciona produtos de baixa rentabilidade na zona de visão nobre, ele perde faturamento potencial. O planograma atua corrigindo essas falhas de exposição, distribuindo as mercadorias nas gôndolas de acordo com suas margens de lucro e giro no estoque.
Os Cinco Níveis de Exposição na Gôndola de Aço
A correta setorização das gôndolas de aço carbono divide-se em cinco faixas horizontais de visibilidade e acesso físico. Cada nível possui uma finalidade comercial específica no planograma:
1. Nível Acima dos Olhos (Acima de 1,70m): Este nível possui menor visibilidade para o público geral, especialmente para mulheres e crianças. É o espaço ideal para produtos de compra planejada (destino), embalagens gigantes, sachês de reposição (refil) e itens de menor apelo de impulso.
2. Altura dos Olhos (1,30m a 1,60m) - Zona de Ouro: Esta é a área mais nobre da gôndola. O cliente a enxerga de forma involuntária. O planograma reserva este espaço estritamente para itens de altíssima margem de lucro, lançamentos da indústria com patrocínio ou marcas próprias que concorrem com líderes de mercado.
3. Altura das Mãos (0,90m a 1,20m): Zona de fácil alcance físico. Indicada para produtos de grande consumo e conveniência, onde a decisão de compra é rápida. Colocar produtos de consumo diário aqui estimula o cliente a pegá-los com facilidade enquanto caminha pelo corredor comercial.
4. Abaixo da Linha de Cintura (0,50m a 0,80m): Área com menor impacto visual direto, necessitando que o cliente abaixe-se para ler as etiquetas. Indicada para itens pesados, produtos essenciais de marcas tradicionais (de compra planejada que o cliente buscará ativamente) e sacarias de tamanho médio.
5. Nível do Chão - Base da Gôndola (Abaixo de 0,40m): Espaço de pior visibilidade. Indicado para itens de grande volume e baixo valor agregado (como sacos de arroz, farinha de trigo, adubos ou carvão). O peso desses produtos também exige que fiquem na base por motivos de estabilidade e segurança estrutural.
Tabela Técnica: Níveis de Visibilidade e Alocação de Margens
Abaixo, apresentamos uma tabela técnica detalhando a eficiência visual, a margem de lucro média sugerida e o perfil de produto para cada um dos níveis horizontais das gôndolas de aço comercial:
| Nível da Gôndola | Altura Física Média | Eficiência de Vendas Estimada | Margem de Lucro Sugerida | Exemplo de Produtos Indicados |
|---|---|---|---|---|
| Acima dos Olhos | Acima de 1,70m | 15% a 20% (Baixa) | Média a Baixa | Sachês refil, embalagens tamanho família e descartáveis. |
| Zona de Ouro (Olhos) | 1,30m a 1,60m | 70% a 85% (Máxima) | Alta margem (+35%) | Marcas próprias, novidades, perfumaria e vinhos finos. |
| Altura das Mãos | 0,90m a 1,20m | 50% a 65% (Média-Alta) | Média (+20%) | Açúcar, cafés especiais, biscoitos e chocolates. |
| Linha de Cintura | 0,50m a 0,80m | 30% a 40% (Média-Baixa) | Baixa a Média | Óleos de cozinha, massas secas e conservas de metal. |
| Base da Gôndola | Abaixo de 0,40m | 10% a 15% (Mínima) | Baixa (Giro Rápido) | Sacos de arroz (5kg), farinha de trigo e carvão vegetal. |
O equilíbrio visual entre esses níveis garante que o tíquete médio da loja cresça de forma sustentável, mesmo sob o ambiente inflacionário projetado pelo Focus em 5,30%.
O Planograma no Combate à Ruptura e Erros de Precificação
Além de direcionar a escolha do consumidor, o planograma desempenha papel essencial no controle de estoques e na prevenção da ruptura (falta de produto na prateleira). Ao delimitar a quantidade exata de frentes de cada item, a equipe de reposição sabe na hora qual mercadoria acabou apenas ao bater o olho na prateleira vazia.
Em épocas de inflação persistente, as alterações frequentes de preços impostas pelos fornecedores aumentam o risco de erros de precificação. A divergência entre o preço anunciado na gôndola e o valor cobrado no checkout gera multas pesadas dos órgãos de defesa do consumidor (Procon).
Para mitigar este risco, o planograma deve ser associado ao uso de porta-etiquetas de aço de encaixe firme com visores nítidos de proteção contra poeira e deslocamento físico. As etiquetas de preços devem ser alinhadas exatamente à esquerda do produto exposto, seguindo o sentido natural de leitura do olho humano.
Voz de Especialistas: O Relato de Gerentes Operacionais e Arquitetas
Para demonstrar os impactos financeiros da implementação sistemática de planogramas, entrevistamos especialistas em layout comercial.
A gerente geral da rede de supermercados "Pague Menos", **Marcela Silveira Rosa**, detalha o impacto nas vendas:
"Com a inflação do IPCA estabilizada em 5,30%, os reajustes de preços tornaram-se o pesadelo de nossa equipe. Se subirmos o preço de marcas líderes, o cliente simplesmente migra para a concorrência na mesma hora. Decidimos contratar o time de consultoria e design da Montar Gôndolas para treinar nossa equipe de repositores e implementar planogramas científicos nas gôndolas de centro. Colocamos nossas marcas próprias e marcas regionais com margens ótimas na Zona de Ouro, deixando as líderes de mercado no nível das mãos ou na cintura. Além de organizar o fluxo visual, o planograma reduziu a falta de mercadorias no salão em 45%, pois o repositor agora percebe na hora onde falta estoque. Sem repassar custos nas marcas tradicionais, conseguimos elevar nossa margem bruta operacional geral em 3,8% apenas otimizando a exposição física."
A arquiteta especialista em comportamento do consumidor no ponto de venda, **Priscila Mendes Castro**, aponta a relevância do design das prateleiras:
"A gôndola de aço não é um mero suporte inerte de mercadorias; ela é um vendedor silencioso de alto impacto visual. O planograma atua como o roteiro desse vendedor. Quando as prateleiras estão perfeitamente organizadas e limpas, sem buracos ou produtos caídos, o consumidor sente segurança e diminui sua ansiedade em relação aos gastos, tornando-se mais propenso a experimentar itens de marcas intermediárias. O uso de organizadores e divisórias plásticas nas prateleiras mantém os produtos sempre alinhados na frente, eliminando a bagunça que os clientes causam durante as compras."
FAQ – Dúvidas Frequentes sobre Planograma e Níveis de Gôndola
Quais os passos iniciais para criar um planograma de gôndolas do zero para um comércio de bairro?
Os passos iniciais consistem em medir fisicamente as dimensões internas úteis das gôndolas de aço carbono (comprimento, profundidade da bandeja e altura útil das colunas) e cruzar com os dados de vendas da loja (dados do sistema ERP). Identifique quais mercadorias possuem maior margem bruta de lucro e quais têm maior volume de giro rápido. Desenhe o esquema de alocação colocando os itens lucrativos na Zona de Ouro (1,30m a 1,60m) e as mercadorias básicas que o cliente compra por necessidade nas bases inferiores.
Com que frequência o planograma de uma gôndola de supermercado deve ser atualizado pelo comerciante?
O planograma deve ser revisado de forma sazonal, de três em três meses, ou quando ocorrerem alterações significativas na cadeia de fornecedores, como o lançamento de novos produtos concorrentes ou alterações estruturais no comportamento de compra regional. Atualizações também são exigidas em datas comemorativas de alta demanda (como Natal, Páscoa e Copa de 2026), onde os produtos de apelo sazonal devem ocupar posições de destaque no salão.
A Zona de Ouro (altura dos olhos) da gôndola atua da mesma forma para o público infantil nas seções de doces?
Não, e esta é uma estratégia essencial de visual merchandising. A Zona de Ouro para o público infantil situa-se em uma altura física muito menor do que para os adultos — geralmente entre 0,70m e 1,10m do nível do piso comercial. O planograma da seção de guloseimas, biscoitos infantis e brinquedos deve ser projetado colocando os itens com maior apelo visual e marcas lúdicas nessa faixa horizontal baixa, capturando o olhar voluntário da criança.
O uso de planogramas científicos ajuda a reduzir o desperdício de produtos perecíveis em mercearias?
Sim, o planograma auxilia a reduzir perdas por vencimento de validade através da aplicação sistemática da técnica FIFO (First In, First Out - Primeiro que Vence, Primeiro que Sai). O planograma delimita o espaço de exposição física de modo que os produtos com data de vencimento mais próxima fiquem localizados na frente do gancho ou bandeja, facilmente acessíveis para a retirada voluntária do consumidor, diminuindo perdas operacionais.
Fontes e Referências
- Banco Central do Brasil (BCB). Ata da Reunião do Copom e Relatório Trimestral de Inflação — IPCA 2026. Brasília, BCB, 2026.
- Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS). Guia de Boas Práticas de Visual Merchandising, Planogramas e Prevenção de Perdas. São Paulo, ABRAS, 2025.
- Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV). Pesquisa sobre Comportamento do Consumidor e Sensibilidade a Preços no Varejo Físico. São Paulo, IDV, 2026.
- Associação Brasileira do Varejo (IBEVAR). Técnicas de Gerenciamento de Categorias (GC) e Otimização do Espaço de Gôndolas. São Paulo, IBEVAR, 2025.
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